Friday, September 13, 2013

2013/09/13: isabel silvestre - a gente não lê

isabel silvestre - a gente não lê



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ai senhor das furnas
que escuro vai dentro de nós,
rezar o terço ao fim da tarde,
só pr'a espantar a solidão,
e rogar a deus que nos guarde,
confiar-lhe o destino na mão.

que adianta saber as marés,
os frutos e as sementeiras,
tratar por tu os ofícios,
entender o suão e os animais,
falar o dialecto da terra,
conhecer-lhe o corpo pelos sinais.

e do resto entender mal,
soletrar assinar de cruz,
não ver os vultos furtivos,
que nos tramam por trás da luz.

ai senhor das furnas,
que escuro vai dentro de nós,
a gente morre logo ao nascer,
com os olhos rasos de lezíria,
de boca em boca passando o saber,
com os provérbios que ficam na gíria.

de que nos vale esta pureza,
sem ler fica-se pederneira,
agita-se a solidão cá no fundo,
fica-se sentado à soleira,
a ouvir os ruídos do mundo,
e a entendê-los à nossa maneira.

carregar a superstição,
de ser pequeno ser ninguém
mas não quebrar a tradição
que dos nossos avós já vem.
"

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